terça-feira, 19 de julho de 2016

Navegar é Preciso - Fernando Pessoa ?

I - Navigare necesse - Pompeu Magno




Essa frase “Navigare necesse, vivere non est necesse" (navegar é necessário, viver não é necessário)  é atribuída ao General Cneu Pompeu Magno no primeiro século antes de cristo, conforme descrito por Plutarco na sua obra "Vida de Pompeu".



a) Pompeu Magno




Pompeu (106–48 a.C.), foi um político da República Romana eleito cônsul por três vezes, em 70, 55 e 52 a.C., com Marco Licínio Crasso nas duas primeiras vezes e Quinto Cecílio Metelo Pio Cipião Násica na última, com um período de um mês no qual não teve parceiro e teve  poderes extraordinários. 


Em meados da década de 60 a.C., Pompeu se juntou a Marco Licínio Crasso e Júlio César na aliança político-militar extra-oficial conhecida como Primeiro Triunvirato, selado com o casamento de Pompeu com a filha de César, Júlia.



Depois das mortes de Júlia e Crasso, Pompeu se aliou ao partido dos optimates, a facção conservadora do Senado Romano. Pompeu e César lutaram então pela liderança do Estado Romano, o que levou à guerra civil entre os dois. Quando Pompeu foi derrotado na Batalha de Farsalos (52 a.C.), ele tentou se refugiar no Egito, mas foi assassinado ao chegar. Sua carreira e sua derrocada final foram eventos importantes na transformação da República Romana no Principado, a fase inicial do Império Romano.
 Pompeu Magno, wikimedia




b) O contexto da frase




No século I com a expansão de Roma a necessidade de expandir e abastecer a cidade crescia. Nesse contexto o general Pompeu, por volta de 70 a.C., foi enviado à Sicilia com a missão de transportar o trigo das províncias para a cidade de Roma que passava fome devido a uma rebelião de escravos.

Como os riscos das navegações eram grandes, devido as fragilidades das embarcações, dos constantes ataques de piratas e a antevisão de uma tempestade que se formva, os tripulantes daquela viagem estavam em um dilema: Salvar a cidade de Roma da grave crise de abastecimento causada pela rebelião, ou fugir dos riscos da viagem mantendo-se confortáveis na cidade de Sicília. 

Foi então que, de acordo com o historiador Plutarco, o general Pompeu proferiu essa lendária frase:

Navigare necesse, vivere non est necesse" (navegar é necessário, viver não é necessário) 


Ao chegar a Roma, Pompeu foi eleito cônsul com o apoio das camadas mais populares, que o viam como herói. Depois, comporia o primeiro triunvirato, governando Roma com Crasso e Júlio César


c) Plutarco





Esta frase ficou famosa pelo trabalho não de Pompeu, e sim de um estudioso e biógrafo de nome Plutarco, mesmo sendo escrita em grego sua forma eternizada é latina e tinha o seguinte formato: “Navigare necesse; vivere non est necesse” Assim está no brasão de Hamburgo, cidade portuária alemã, antiga sede da Liga Hanseática .




II - Liga Hanseática




A Liga Hanseática foi uma aliança de cidades mercantis - alemãs ou de influência alemã - que estabeleceu e manteve um monopólio comercial sobre quase todo norte da Europa e Báltico, em fins da Idade Média e começo da Idade Moderna (entre os séculos XII e XVII). 

Abrangeu umas 100 cidades, com Lubeque como centro. De início com caráter essencialmente econômico, desdobrou-se posteriormente numa aliança política.

Do Norte da Europa era exportado peixe seco, trigo, madeira, ferro , cobre, sal, lã e peles. De volta era trazido tecidos, vinho, sal e especiarias.

A rede comercial da Hansa abrangia o eixo Novgorod-Reval-Lübeck-Hamburgo-Bruges-Londres, e estava ligada às esferas comerciais deVeneza e de Génova, no Sul da Europa.

Com os descobrimentos marítimos de Portugal e Espanha - sobretudo a descoberta da América e a descoberta do caminho marítimo para a Índia, nos séc. XV e XVI, o comércio mundial procurou outras rotas, tendo então a Hansa entrado em declínio, até desaparecer no séc. XVII.

A liga tinha como lema justamente a frase "Navigare necesse, vivere non est necesse"


III - Escola de Sagres - 


Temos referências que dizem que a frase também era lema da famosa Escola de Sagres.


IV - Petrarca - Navegar é Preciso



No decorrer do século XIV e o poeta italiano Petrarca transformou a expressão para “Navegar é preciso, viver não é preciso.”



V - Fernando Pessoa - Poema - Navegar é Preciso




Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de junho de 1888 — Lisboa, 30 de novembro de 1935), foi um poeta, escritor, astrólogo, crítico e tradutor português. Enquanto poeta, escreveu sobre diversas personalidades – heterónimos, como Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro –, sendo estes últimos objeto da maior parte dos estudos sobre a sua vida e obra.


Fernando Pessoa e Luiz Vaz de  Camões são considerados os maiores escritores da língua portuguesa.


Com relação a frase "Navegar é preciso, ...", Fernando Pessoa no seu tempo escreveu “Quero para mim o espírito dessa frase”, confinando o seu sentido de vida à criação. Ele atribui a autoria a algum autor desconhecido de um passado remoto quando diz "Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa". Vejam o poema abaixo.



Navegar é preciso  (Poema de Fernando Pessoa)


Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: 
"Navegar é preciso; viver não é preciso."

Quero para mim o espírito desta frase, transformada 
A forma para a casar com o que eu sou: Viver não 
É necessário; o que é necessário é criar. 

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. 
Só quero torná-la grande, ainda que para isso 
Tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo. 

Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso 
Tenha de a perder como minha. 

Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho 
Na essência anímica do meu sangue o propósito 
Impessoal de engrandecer a pátria e contribuir 
Para a evolução da humanidade. 

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.



VI - Os Argonautas - Caetano Veloso



Em 1969 no seu album branco,  cantando a coragem navegante, em jeito de fado brasileiro, Caetano Veloso escreveu Os Argonautas utilizando como mote principal a estrofe  “Navegar é preciso, viver não é preciso .





Os Argonautas (Caetano Veloso)
O Barco!
Meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração
O porto, não!...

Navegar é preciso
Viver não é preciso...(2x)
O Barco!
Noite no teu, tão bonito
Sorriso solto perdido
Horizonte, madrugada
O riso, o arco da madrugada
O porto, nada!...
Navegar é preciso
Viver não é preciso (2x)
O Barco!
O automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento
O porto, silêncio!...
Navegar é preciso
Viver não é preciso...


VII - Ulisses Guimarães



Em 1973, ainda na época da ditadura, Ulysses Guimarães lançou sua candidatura a Presidente da República em uma eleição indireta que era feita no congresso nacional totalmente submetido ao governo militar. Mesmo sem esperanças de vitória, Ulysses chama a atenção para a necessidade de não se calar, lutar democraticamente e manter a esperança. Abaixo colocamos o primeiro e o último parágrafo de seu discurso:






O discurso abaixo, de 22 de setembro de 1973, foi pronunciado por Ulysses na convenção do MDB, que o indicou anticandidato a presidente, tendo como companheiro de chapa o presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Barbosa Lima Sobrinho.




“O paradoxo é o signo da presente sucessão presidencial brasileira. Na situação, o anunciado como candidato, em verdade, é o Presidente, não aguarda a eleição e sim a posse. Na Oposição, também não há candidato, pois não pode haver candidato a lugar de antemão provido. A 15 de janeiro próximo, com o apelido de "eleição", o Congresso Nacional será palco de cerimônia de diplomação, na qual Senadores, Deputados Federais e Estaduais da agremiação majoritária certificarão investidura outorgada com anterioridade. O Movimento Democrático Brasileiro não alimenta ilusões quanto à homologação cega e inevitável, imperativo da identificação do voto ostensivo e da fatalidade da perda do mandato parlamentar, obra farisaica de pretenso Colégio Eleitoral, em que a independência foi desalojada pela fidelidade partidária. A inviabilidade da candidatura oposicionista testemunhará perante a Nação e perante o mundo que o sistema não é democrático, de vez que tanto quanto dure este, a atual situação sempre será governo, perenidade impossível quando o poder é consentido pelo escrutínio direto, universal e secreto, em que a alternatividade de partidos é a regra, consoante ocorre nos países civilizados.
....

Senhores Convencionais:
A caravela vai partir. As velas estão paridas de sonho, aladas de esperanças. O ideal está ao leme e o desconhecido se desata à frente.
No cais alvoroçado, nossos opositores, como o velho do Restelo de todas as epopéias, com sua voz de Cassandra e seu olhar derrotista, sussurram as excelências do imobilismo e a invencibilidade do establishmentt. Conjuram que é hora de ficar e não de aventurar.
Mas no episódio, nossa carta de marear não é de Camões e sim de Fernando Pessoa ao recordar o brado:
"Navegar é preciso.

Viver não é preciso".

Posto hoje no alto da gávea, espero em Deus que em breve possa gritar ao povo brasileiro: Alvíssaras, meu Capitão. Terra à vista!

Sem sombra, medo e pesadelo, à vista a terra limpa e abençoada da liberdade. 

VIII - Outras Interpretações


Alguns autores e críticos fazem a interpretação da frase "Navegar é preciso, viver não é preciso", dando o sentido de exatidão para o termo "preciso". Nessa interpretação o sentido da frase seria que navegar é uma coisa exata pois sendo baseada em instrumentos como bússolas e outros aparelhos sabe-se perfeitamente de onde se parte e para onde se dirige. Já viver é uma atividade imprecisa sem qualquer garantia que aquilo que se planeja vá realmente acontecer.

Pelo sentido dado por Pompeu na conclamação aos marujos, no poema de Fernando Pessoa e na canção de Caetano, para mim fica claro a idéia de necessidade para o navegar e não de exatidão. É o sentido que prevalece na maioria das interpretações.


IX - Referências


Um olhar intertextual em "navegar é preciso" - http://www.mackenzie.br/fileadmin/Pos_Graduacao/Doutorado/Letras/Cadernos/Volume_4/010.pdf
Navegar é preciso - http://textosparareflexao.blogspot.com/2010/05/navegar-e-preciso.html
Navegar é preciso - http://brasilescola.uol.com.br/curiosidades/navegar-preciso-viver-nao-preciso.htm
letra dos argonautas - https://www.letras.mus.br/caetano-veloso/44761/
biografia Fernando Pessoa - http://www.revistaliteraria.com.br/biopessoa.htm
OS Argonautas de Caetano Veloso - www.youtube.com

domingo, 17 de julho de 2016

Navegar é Preciso - Desafio

I - Navegar é Preciso


Desafio I da Semana:

"Navegar é preciso, viver não é preciso"

- A quem é atribuída essa frase ?
- Qual o famoso poeta portugês que a utilizou e qual o poema ?
- Qual compositor brasileiro a utilizou em uma música e qual o nome dela ?



quinta-feira, 14 de julho de 2016

História Resumida de Florença - Da Fundação ao Renascimento

I - História de Florença


Provavelmente habitada em tempos mais remotos pelos etruscos, Florença foi fundada como vila pelos romanos no século I d.c.. A cidade foi construída visando a sua defesa, na confluência dos rios Arno e Mugnone. 



Visão panorâmica de Florença - foto de Veronika Galkina em fotolia.com.br


- Invasões Bárbaras (Século I - IV)



No período das invasões bárbaras Florença foi bastante atacada. A sua localização estratégica, como ponte sobre o rio Arno e como ponto de comunicação entre Roma e Padânia, era a razão principal pela qual ela era tão disputada. 



Mapa da Itália mostrando a ligação de Padania a Roma passando por Florença - fonte google maps





Padânia é una denominação geográfica que identifica as regiões do norte da Itália (Vale de Aosta, Piemonte, Ligúria, Lombardia, Trentino-Alto Adige, Vêneto, Friuli-Venezia Giulia e Emília-Romanha). Alguns autores incluem a Toscana nessa designação mas não é o mais comum.


- Período Bizantino e Lombardo (Século IV a Século VIII)



Entre 541 e 544 foram construídos novos muros para a cidade, sobre a estrutura de diversas grandes construções romanas, como o Capitólio, o reservatório de água e o teatro. As paredes eram trapezoidais e seu tamanho modesto atesta o declínio da cidade, muito despovoada, com menos de mil habitantes.

Por volta do final do século VI, quando os lombardos conquistaram o norte da Itália e da Europa Central, Florença caiu sob seu domínio. Era o começo do que pode ser considerado o período mais negro da história da cidade. 

Retirada fora das rotas principais, havia desaparecido a principal razão para sua existência. Para a comunicação norte-sul, os Lombardos abandonaram a rota central de Bolonha-Florença-Pistóia, pois era muito exposta às invasões dos bizantinos, que ainda tinham o controle da parte oriental da Itália. Lucca foi escolhida como a capital do Ducado da Toscana pela sua localização, que  ficava perto das estradas usadas para comunicação interna.



- Período Carolíngio (Século IX a Século X)



No período carolíngio Florença se torna um condado do Sacro Imperío Romano e surge então uma escola publica eclesiástica. 

No final do século X, a Condessa Willa, viúva do Marquês da Toscana, que possuía um distrito inteiro dentro das muralhas, fundou uma abadia beneditina, à qual doou muito dinheiro em memória de seu marido. Este foi chamado de "Badia Fiorentina". O filho da Condessa Willa, Hugo, contribuiu fortemente para o desenvolvimento de Florença ao decidir sair de Lucca. A escolha de Florença como lugar de sua residência reforçou o caráter administrativo da cidade.

O ponto de inflexão (Século X - A virada)



O ano  mil pode justamente ser considerado um ponto de virada decisivo na história da Europa Cristã. Isto por razões muito mais importantes do que apenas o mil como número redondo.

Mosteiro Cistercense, www.cistercensi.info
Já havia falhado a primeira tentativa de estabelecer a paz, a prosperidade e a ordem civil sobre as ruínas do Império Romano, feita  pela chamado Renascença carolíngia.

O glorioso império de Carlos Magno ruiu sob o antagonismo de seus netos e uma nova onda de invasão bárbaras que chegava. Os Vikings atacaram a partir do norte, os sarracenos do sul, os húngaros do Oriente. Perto do final do século IX o problema não era somente a defesa da civilização cristã mas a sobrevivência do próprio cristianismo.

Os bárbaros, mais uma vez, faziam os ataques, montados em  cavalo ou em seus navios, em todo o continente: Roma e Paris estavam tão inseguras quanto Bordeaux, Marselha ou Nápoles. Ainda fumegavam ruínas de mosteiros outrora tão poderosos, enquanto o papado afundava para tornar-se uma instituição de importância agora exclusivamente local.

Entretanto, em meados do século X, começaram a se multiplicar os sinais de esperança. O ímpeto de invasões bárbaras diminuiu quando os vikings e os húngaros se estabeleceram nas terras recém-conquistadas e começaram a se integrar ao mundo cristão, tornnado-se colaboradores ativos no lento processo de reconstrução.

Otto I, um saxão, deu um pouco de  ordem nas terras germânicas, ele renovou o Império e resgatou  o papado das mãos das famílias mais poderosas de Roma, que guerreavam perpetuamente  entre si. Enquanto isso, Cluny, em rápida expansão, restaurava na Europa ocidental a confiança e o respeito pelas instituições monásticas.

(fonte: http://www.cistercensi.info/storia/storia_es.htm)


- As Comunas (Século XII)





                      A comuna de Florença, ilustração da Wikimedia Commons



A partir do século XII Florença já passa a se organizar em "comunas", as quais começaram a planejar uma forma de governo - com direito a prefeitos e magistrados - que se encarregavam de administrar e defender tanto as cidades como seus interesses, os burgueses de maior riqueza e poder ocupavam os principais cargos, elaboravam leis, criavam tributos, controlavam os impostos para fazer e manter a construção de obras e claro tinham política própria.

Embora os nobres detivessem a maior fatia do poder no século XII, os comerciantes foram os principais responsáveis pelo desenvolvimento da cidade. A ascensão dos comerciantes na segunda metade do século, assim como o comércio com países distantes se intensificou e tornou-se uma nova fonte muito mais rica e de acumulação de capital. O amplo comércio e seu companheiro inseparável, o crédito, foram a base da expansão econômica e demográfica da cidade.



- Guelfos e Guibelinos (Séculos XII e  XIII)



Os guelfos e os gibelinos constituíam facções políticas que, a partir do século XII, estiveram em luta na Itália, especialmente na República Florentina. Os conflitos se intensificaram sobretudo a partir do século XIII.


Na origem tratava-se de uma disputa entre os partidários do papado (os guelfos) e os partidários do Sacro Império Romano-Germânico (os gibelinos).

As denominações "guelfos" e "gibelinos" originaram-se após o imperador Henrique V (1081 - 1125) morrer sem deixar herdeiros diretos. Criou-se, então, um conflito na disputa pela sucessão do Sacro Império. Os guelfos e o Papa apoiavam a Casa de Welf (de onde provém o termo "guelfo"), enquanto os gibelinos eram partidários da casa suábia dos Hohenstaufen, senhores do castelo de Waiblingen (de onde provém a palavra "gibelino").



  Guelfos x Gibelinos - ilustração de Faberh em Wikimedia Commons
                            
No interior das cidades, a mesma dicotomia se reproduziu, mas acabou perdendo o significado tradicional de luta política entre o papado e o Sacro Império, para transformar-se em luta entre as facções da população, pelo domínio da cidade. Para aumentar sua força, as cidades, tanto guelfas quanto gibelinas, assim como as respectivas famílias, reuniam-se em ligas opostas.

Assim, a partir da segunda metade do século XIII, a cidade guelfa de Florença combateu a liga gibelina formada pelas cidades toscanas de Arezzo, Siena, Pistoia, Lucae Pisa
.


- Expansão da Cidade e Seu Auge (Século XIII)


Pallazzo Vecchio, foto de prosiaczeq / fotolia.com
                                
Na última parte do século XIII Florença chegou ao auge de seu desenvolvimento econômico e demográfico. Durante este tempo, foram feitas grandes obras nos campos da arquitetura e urbanismo, e isso foi possível graças à enorme acumulação de capital que resultaram das atividades comerciais e financeiras. A população continuou a aumentar e foi necessário construir novos muros, ampliando a área protegida para cinco vezes o tamanho anterior. 


No final do século XIII Florença poderia justamente ser considerada a principal cidade do Ocidente. Os empresários então no poder decidiram construir dois edifícios que simbolizassem a riqueza e o poder da cidade: a nova catedral e o Palazzo della Signoria. Arnolfo di Cambio era a notável figura que projetou ambos os edifícios, assim como todas as outras obras importantes promovidas pelo governo das cooperativas, incluindo os novos muros.


                  Catedral (Duomo ) de Florença - foto de Jiri Vondrous em shutterstock.com



- Do Século XIV ao Renascimento



No final do século XIII e durante o século XIV acentuaram-se os contrastes entre as classes mais baixas e a classe de comerciantes ricos. Estes últimos conseguiram se estabelecer no poder, mas no século XIV a população menos favorecida tentou várias vezes ampliar a base democrática de governo. Em 1378, sob o impulso de um movimento movido pelo proletariado, o grupo de pessoas mais afortunadas foi forçado a aceitar uma reforma constitucional que incluía a criação de novas cooperativas; Tintori, Farsettai, Corsettieri e Ciompi, correspondente às tarefas mais humildes e aos trabalhadores. Por causa de interesses divergentes internos e a inabilidade de governar, essas cooperativas não conseguiram sustentar a reação dos comerciantes de classe média.





Ponte Vecchio sobre o rio Arno, Florença - foto de  marina shinkarchuk / Shutterstock.com



Negros e brancos



A rivalidade entre duas famílias nobres causou muita discórdia e levou à formação de dois grupos rivais, conhecidos como negros e brancos. Os primeiros eram geralmente membros dos recém-chegados, que rapidamente enriqueceram e foram agrupados com os representantes das antigas classes de nobres mais intransigentes dos Guelfos. Os dois partidos se revezaram no poder na última década do século XIII, mas o conflito se intensificou.

Casa onde nasceu Dante Alighieir, foto de Sailko, wikimedia commons


Durante o século XIV, o conflito interno e as guerras foram agravadas pela fome e epidemias, em especial a Peste Negra de 1348, o que agravou uma situação que já era precária. Mais danos foram causados pela inundação desastrosa de 1333, que varreu todas as pontes sobre o rio Arno, exceto Rubaconte. O século XIV foi, portanto, um século de crise política e econômica, um período decisivo comum a todas as economias ocidentais.



Os Médicis (1434 - final do século)



Quando o poder voltou para ao partido dos gordos (popolo grasso), no final do século XIV, um regime oligárquico foi criado em Florença e um pequeno percentual da classe média mercantil governou a cidade por cerca de 40 anos. 
No entanto, seguiu-se forte oposição à oligarquia e que  inteligentemente explorou esse descontentamento popular. A parte da classe média que tinha sido excluída do poder se juntou ao povo e encontrou um líder em Giovanni Médici, chefe da empresa mais rica e poderosa da Calimala. Após a morte de Giovanni (1429), o contraste entre as os partidos ficou ainda mais evidente, enquanto continuava a crescer a corrente de opinião favorável aos Médicis. 

Cósimo Médici
O filho mais velho de Giovanni, Cósimo, era um banqueiro e negociante competente. Ele logo percebeu-se que a riqueza da família era grande demais para ser protegida sem cobertura política, por causa das operações financeiras e crescente problema com várias entidades. Assim começou sua subida para as alavancas do poder da República Florentina Através do controle das eleições, do sistema tributário e da criação de novas magistraturas, lançou as bases para o poder da família Médici. Mantendo formas e instituições republicanas, baniu seus inimigos e oponentes e concentrou as principais magistraturas nas mãos de seus partidários.



Verdadeiro fundador do poder da família, obteve o senhorio virtual da cidade a partir de 1434, quando expulsou os líderes da facção oligárquica dos Albizzi. Com isso encontrou caminho livre, embora tenha respeitado a forma antiga de governo e evitado medidas arbitrárias.

Cósimo, astutamente era o senhor da cidade, embora tentasse esconder o fato, mesmo desprovido de qualquer poder real.

Ele morreu em 1464, e foi substituído pelo medíocre Piero, o Gotoso (1464-1469), cujo filho, Lourenço, o Magnífico, deu prosseguimento à política de dissimulação quase até o final do século: fazia os ofícios tradicionais, mas foi na verdade, e sem dúvidas, o Senhor de Florença, em todos os aspectos.

II - O RENASCIMENTO ITALIANO 




                                Escola de Antenas, Rafael, Vaticano

Durante os anos em que a oligarquia mercante governou Florença e no período antecedente aos Médici , os contatos cada vez mais frequentes com leituras da antiguidade grega e romana provocaram um novo espírito e a cidade se tornou o centro onde o Humanismo foi fundado. O homem passou a considerar-se o centro do mundo, ávido por conhecimento racional e por afirmar seu domínio sobre o meio natural e a história que o precede. 


A cultura literária, as ciências, as artes e as atividades humanas são colocadas em primeiro plano. Este foi um período áureo do intelecto e da cultura na Europa. Por exemplo, Filippo Brunelleschi, entre 1420 e 1446 fez uma grande quantidade de obras que foi um dos momentos mais importantes da história da arquitetura e do urbanismo florentino. 



Entrada do Pallazzo Vecchio com a réplica do David de Michelangelo, foto de ribeiroantonio / Shutterstock.com


Um número incrível de pessoas participou na vida artística de Florença e ajudaram a construir a imagem da cidade renascentista de Brunelleschi, Donatello, Masaccio, Filippo Lippi, Ghirlandaio Domenico, Sandro Botticelli, Fra Angelico, Michelozzo, Giuliano da Sangallo e Bento Majano.  

III - Tópicos  importantes em Florença


Florença vista da colina, foto historiacomgosto 


Como Florença é uma cidade riquíssima nos aspectos históricos e culturais, ficaria muito pesado criar um blog único sobre a cidade. Optamos então por criar esse blog de história resumida de Florença e criar links para os seguintes eventos importantes na sua história.


- História resumida de Florença
- Batistério de São João e as Portas do Paraíso
- A Catedral (Duomo) de Florença 
- Dante Alighieri e a Divina Comédia
- Galeria Uffizzi - Construção e Obras
- Michelangelo Buonarroti - Esculturas e Obras
- Leonardo da Vinci - Sua história em Florença
- Boticcelli, O Nascimento de Vênus e Primavera.


IV - Referências


História Resumida de Florença - http://www.aboutflorence.com/pt/historia-de-Florenca.html
Mosteiro de Florença e ano mill - http://www.cistercensi.info/certosadifirenze/index.php
Wikipedia - Florença / Comunas Medievais.
Fotos: Wikimedia Commons, Fotolia, Shutterstock e historiacomgosto

Obs: A maior parte do texto foi compilada do site www.aboutflorence.com

terça-feira, 12 de julho de 2016

O Disco de Ouro da Voyager

I - A Missão Voyager 1 da Nasa



Voyager é o nome de um programa norte-americano de pesquisa espacial da NASA iniciado em 1977 com o lançamento de duas missões, a Voyager 1 e Voyager 2, com o objetivo inicial de estudar os planetas Júpiter e Saturno e suas respectivas luas. 

Posteriormente foi ampliado com a inclusão das primeiras explorações de Urano e Netuno e o estudo do espaço após a orbita de Plutão. Em 1990, com seus objetivos no sistema solar atingidos, iniciou-se um novo programa chamado Missão Interestelar Voyager. Em 2004 a Voyager 1 e em 2007 a Voyager 2 saíram da Heliosfera entrando em uma região conhecida como Heliosheath que é a fronteira do sistema solar com o espaço interestelar.


Em maio de 2005, a Voyager 1 estava a 14 bilhões de km de distância do Sol, viajando a uma velocidade de cerca de 61 000 km/h  enquanto a Voyager 2 estava a 10.5 bilhões de km, a uma velocidade de aproximadamente 53 000 km/h .



                       Ilustração da Voyager - propriedade da Nasa, em Wikipedia


Dentro de aproximadamente 40 000 anos, a Voyager 1 vai passar a 1,6 anos-luz da estrela AC+79 3888, na constelação de Ofiúco. Mais ou menos na mesma época, a Voyager 2 vai se aproximar da estrela Ross 248, na constelação de Andrômeda.




Ilustração da Voyager propriedade da Nasa






II - Os Discos  de Ouro da Voyager


Os Discos de Ouro da Voyager são discos fonográficos que estão a bordo de ambas as naves Voyager. Eles contêm sons e imagens selecionados como amostra da diversidade de vida e culturas da Terra e são dirigidos a qualquer forma de vida extraterrestre (ou seres humanos do futuro distante) que os encontrem. 

Nenhuma das naves Voyager foi lançada em direção a uma estrela em particular, mas a Voyager 1 vai passar a 1,6 ano-luz de distância da estrela AC+79 3888 na Constelação de Ophiuchus dentro de 40 000 anos. 



Foto dos Discos de Ouro da Voyager - propriedade da Nasa, em Wikipedia




Como as sondas são extremamente pequenas comparadas à imensidão do espaço interestelar, muitos consideram improvável que elas sejam encontradas, mesmo que acidentalmente. Se forem encontradas por alguma espécie alienígena, isso só vai ocorrer num futuro muito distante. Portanto, os Discos de Ouro são mais um tipo de cápsula do tempo do que uma tentativa de comunicação com civilizações extraterrenas


III - O Conteúdo do Disco


Após ser decidido a inclusão do "Disco de Ouro" na nave, restava saber o que colocar no disco. Formou-se uma comissão presidida pelo astrônom Carl Sagan com participação de outros cientistas. Após um período de debates decidiu-se por enviar informações não apenas sobre a ciência dominada pelo homem (coisas da mente), como predominantemente enviar  informações sobre a nossa cultura (coisa da alma).

O disco foi preenchido então com saudações dos povos da terra em várias línguas, informações sobre a nossa biologia,  fotos do nosso habitat,  gravações de sons característicos do nosso mundo incluindo 28 músicas escolhidas para representar o nosso processo criativo.

Conteúdo:


- Cento e dezoito (118) fotos explicando o planeta Terra e os seres humanos
- Saudações em cinquenta e quatro idiomas humanos diferentes
- Saudações das baleias jubarte
- Seleção representativa dos sons da terra desde uma avalanche até o  som de um beijo.
- Noventa minutos de música contendo vinte e sete (27) músicas diversificadas representando a criatividade e a cultura dos vários povos.


III - O Concerto para Brademburgo número 2 em Fá Maior.



A primeira música que abre a lista é o Concerto para Brademburgo No 2 de Johann Sebastian Bach  e as  razões foram comentadas pelos responsáveis:



"A seção de música do disco da Voyager começa com esta nota de enérgico otimismo. Não temos bases para supor que um ouvinte extraterrestre reconheceria o otimismo ou pessimismo humanos, nem que identificaria a "música" humana como tal, de maneira que nos permitirmos considerações emocionais na escolha de músicas para um artefato interestelar representa um ato de fé. Entretanto , o que mais poderíamos fazer ?".













III.2 - As outras músicas do Disco



  1. Concerto para Brademburgo, Bach
  2. Gamelão no pátio real - Java  
  3. Percurssão do Senegal
  4. Dança de iniciação de jovens pigméias, Zaire
  5. Canções aborígines, estrela da manhã, Austrália
  6. El Cascabel, México
  7. Johny B. Goode, Chuck Berry
  8. Canção de casa dos homens, Nova Guiné
  9. As Garças do Ninho, Shakuhashi, Japão
  10. GAvotte en rondeaux, BAch
  11. A Flauta Mágica, ária rainha da noite, Mozart
  12. Tchakrulo, Geórgia
  13. Flautas de Pã, Peru
  14. Melancholy Blues, Louis Armstrong
  15. Giatas de fole, Azerbaijão
  16. Sagração da Primavera, Stravinsky
  17. O cravo bem temperado, livro 2, prelúdio e fuga em dó, Bach
  18. Quinta sinfonia, Beethoven
  19. IZlel je delio, Bulgária
  20. Cantos  da Noite, Índios Navajo
  21. Pauleans , Galliards, the fairie round, Músicos de Londres
  22. Flautas de Pã, Ilhas salomão
  23. canção nupcial, Peru
  24. Correntes que fluem, China
  25. "Jaat Kahan Ho, Índia
  26. Dark was the night, Blind Willie Johnson
  27. Quarteto de cordas no 13, Beethoven

Que (quais) música(s)  você enviaria para o espaço  ?

IV - Carl Sagan



Carl Edward Sagan (Nova Iorque, 9 de novembro de 1934 — Seattle, 20 de dezembro de 1996) foi um cientista, astrobiólogo, astrônomo, astrofísico,cosmólogo, escritor e divulgador científico norte-americano. Sagan foi professor de Astronomia e Ciêcnias espaciais na universidade de Cornell e é autor de mais de 600 publicações científicas, e mais de 20 livros de ciência e ficção científica. CArl Sagan foi o Presidente do Comitê designado para definir o conteúdo do disco de ouro da Voyager.






"Em agosto e setembro de 1977 foram lançadas ao espaço duas extraordinárias espaçonaves chamadas Voyager. Após explorarem Júpiter e Saturno, elas abandonarão lentamente nosso sistema solar e farão um cruzeiro durante éons, até chegarem ao reino de outras estrelas. Afixado a cada uma das naves espaciais há um disco fonográfico recoberto de ouro, uma mensagem da Terra a possíveis civilizações extraterrestres."



"Ninguém envia uma mensagem semelhante em semelhante jornada sem uma paixão inegável pelo futuro, ..."











Minhas homenagens a Carl Sagan o maior divulgador da ciência no seu tempo e que  também foi autor da série "Cosmos" apresentada nas redes de televisão.



V- Referências


- Livro: Os murmúrios da Terra, Carl Sagan e outros.

- Wikipedia: O disco de ouro da Voyager